segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Animalia


Um dia um estranho me disse
que de nada eu era,
e que nada eu continuaria a ser,
que minha pele escura
desbotaria e mancharia
de tinta negra, o seu mar.

Um dia alguém me disse
em tom de deboche
que eu parecia piche
que meus cabelos eram cobre
e o que o meu corpo cobria
era pobre.

Um dia um cretino me disse,
para entrar em sua casa
invadir seus aposentos
e me entregar em um ritual
nojento.

Um dia alguém me disse: "Espera!".
Então esperei sangrento.
E vieram, projéteis e quimeras,
feridas e pedras,
invernos, pesadelos e primaveras...

Um dia alguém me disse
que de nada eu era.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Infante


Foi-se o tempo em que eu brincava na lama,
de me melar com a areia da rua e jogar água da chuva no rosto.
Foi-se o tempo em que eu rolava no chão, na grama e me divertia com qualquer coisa,
que não fosse perigosa.
Foi-se o tempo em que eu corria de cima para baixo, quebrava vasos, jarros, galhos e continuava de pé, intacto.
Foi-se o tempo em que sonhava com fadas, anjos, amigos, amores, neve e asas, sempre sonhava acordado e tinha pesadelos quando dormia, inversão de fato.
Foi-se tanto tempo...Não lembro mais de muita coisa.
E foi-se o tempo em que eu acreditava em todos, tudo, no mundo, nas florestas e em pessoas boas...
Foi-se o tempo da credulidade, da minha bondade,do perdão, das amizades, sorrisos,algodão doce, refrigerante, festas, fogos, animais lindos...Foi-se esse tempo.
E agora o que me resta são os cacos.

Fanático


Eu vi você sem mais compaixão
com ódio, mágoa, a confusão.
E o beijo doce não mais era saboroso.
O céu tornou-se amarelo
e a terra virou o seu principal inferno,
seus olhos eram rudes e vidrados.

Perdi o tempo para acreditar
rezei, orei e permaneci calado
mas a voz insistia em sair de dentro.

De um coração, voraz, sangrento
que guarda em sí, um cruel segredo.
Meus pés forjaram uma, armadura.

Sombras nuas,
na parede, suja,
da minha casa,pura,
no meu quarto
sem janelas,
ou espelhos.

Cobriu-se o corpo com o veneno
daquelas bocas, de cruel lamento
entoou um hino de maldade.
E com falsas lágrimas, escondeu a verdade
que sempre foi uma infeliz deidade,
mas que agora rasga os joelhos...
A sua fé,seu fiel escudeiro
em jardins mortos e rios lamacentos
em vales de horror e de macabras formas.
Correu,gritou e matou a ave
que descançava na paisagem
e engoliu um amargo "Aléluia".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Iluminantes


Um faminto animal
corre, sedento de sortes
de novo rumores.

Deixa a manada de coelhos
que agarrados aos cabelos,
mordem.

Animais sem vida.
Criados por crianças tímidas,
jogados em uma terra sêca.

Mudam a forma e a cor do vento
que de amarelo se torna violento
e uiva como um cão sarnento.

Prendem a menina fanha
lambem as feridas, entranhas,
correm e brincam ao redor
da fogueira.

Pensam, pestes fofas e cretinas,
falam com hálito de rapinas
e entram em lugares sangrentos.

Estes seres inimigos,
desde cêdo se tornaram amigos
do menino famintio:
sedento de sortes e novos rumos...
ao infinito.

Manolo


Havia duas partes iguais
de um menino medroso
e um sombrio cachorro
latindo dentro do fosso.

Caminhando para fora
e viu a face de um porco.
Chorou,sorriu,brincou
de novo.

Correu dentro das folhas
e separou as formas
com seu amigo novo
e seu canino morto.

Ao longe viu uma garota
com seu crucifixo,
gritando, um grito aflito
com medo dos seus monstros.

Tocou a pele fria,
puxou os seus cabelos,
olhou para o espelho e
voltou para casa.

E dentro do seu caderno: palavras,
Um novo amigo, uma garota, um mundo totalmente novo.
E um cão morto.

Tímidos


Fui desbravar
em sonhos coloridos.
Complexos , divertidos
de infinitos sons.

Deixei-me escalar,
os picos sorridentes
de tinta reluzente,
cobertos com maçãs.

Seus longos casos,
de amores assassinos.
Os seus ocultos hinos,
de mera profusão.

Eu preferí os dedos,
que sujos com o doce.
Não choram,não perecem,
e nunco dizem:Não.

"Pequenas pragas
que se alimentam
de alegrias,
que passageiras,
mortas,
são falsas:frias!"

Fagulha


Não há valor,
não há calor em nada.

Nem gelo frio
nem o aço em brasa.

Só há um corpo que repousa triste,
sobre um monte de papéis usados.

Sobre um monte de destroços caros,
descança o corpo sobre as maldades.

A tirania esconde a verdade.
A fantasia mata a criança
que se afunda na solidão,
na ânsia,que chora dentro da sua alma triste.

Que espera,
que quando o seu corpo for morrendo aos pouco,
que realmente , a sua alma existe.

Que as maldades não me tornem fosco.

Louco


Mas os seus olhos
só me viam torto.
E eu mais tolo me deixei levar...
Continuei sofrendo sem cessar.
Continuei moldando, pó e choro.

Cantei meus hinos de lamentos mortos.
Larguei a faca sobre a mesa lisa.

Franzi a testa e beijei a brasa.
Minha língua pesa como toneladas.

Fechei os olhos para
tudo e todos.
Meu corpo morto
banhado de baratas,
e a voz ao longe que chorava, pára.

Meus pensamentos sujos como um porco.

Meios


Se fácil fosse ser, seria.
Se simples fosse ver, veria.

A vida não espera minha,
a minha mínima festa.

Queimando os meus olhos negam.
Chorando, eu me sinto leve.

E crendo minha alma eleva,
seu grito de amor me quebra.

Esperança de um dia fragrante...

Amigos que o Além conserva.

Marte fica longe


Na face amarga,
na vida e na morte,
na moça sem sorte,
no lar de Apolo.

Em todos os cantos,
do mundo eterno,
que dentro do berço
dos seus pés feridos.

Gemidos no único marco,
janelas na única casa.
Farsas de uma pequena
e singela, alma cara.

No meu coração sem forma,
que não são dois arcos unidos.
Eu ouço,vejo e sinto...
Os seus pequenos pés feridos.

Venha e deixe de lado as dores!
Veja e pense como amar era doce!
Lembra?
Eu sei que existe um lugar...

Onde eu ouço, eu vejo, eu sinto...
Os seus pequenos pés feridos.

Brisa


Desenha o dedo
a areia cinza
mistura com a brisa,
com o mar eterno.

Fez, a tez de ferro
moldou a espuma lisa,
correu nos bancos, frisa,
as mais tristes mesclas.

Sentou, abriu as pernas.
Cantou, catou as penas.
Cuspiu o sal da lingua,
limpou as suas presas.

Prendeu a mão na pedra,
rasgou a carne viva,
gritou na areia cinza,
a boca, no vento frio, brisa!

Enfático


Perenes formas
nas mais vís sombras,
na minha linda e franca,
reunião de fracassados.

Pensar que nada,
que parece ser,
levanta...
Morte, ao seu primeiro pecado.

Caminhos vidrados,
anti caros,
caminhos distantes,
raros.