terça-feira, 21 de maio de 2013

Monstro do Lixo

De noite ou de dia, lá vai ela catando o lixo na cidade. Aqui e acolá, sempre há algo sujo para se olhar. Uma camisa rasgada de seda, sandálias velhas, brinquedos usados. Ela não se cansa de procurar no lixo, aquilo que nunca pode comprar.
E entre as ruas, e entre o escuro e os ratos, entre os gatos e cães abandonados, ela está. Trocando palavras por latidos. E debaixo do seu barraco colorido, ela descansa o corpo, pois a alma continua a passear, procurando no lixo dos outros, aquilo que não pode ter.
Amanhã, o sol se levanta cedo, o frio ainda está nos pés dela, quando já é hora de sair.
Procurando aquilo que brilhe no meio do sujo, aquilo que possa ser colocado ao lado de onde ela dorme...Ao lado das fotos de gente que ela nem conhece, mais fotos de gente que ela não conhece.
Ela guarda fotos de gente desconhecida, gosta de crianças...Procura fotos no lixo.
De noite ou de dia, ela continua andando, caminhando, abrindo passagens entre o lixo e a realidade, entre aquilo que tem valor e o que tem preço.
E no final do dia, quando a noite chega silenciosa, ela recolhe as suas forças e vai para casa, aquela caixa de pedaços e papelão e madeira podre;
Ela vai dormir, e por cima dela os carros e a cidade passam, assim como passam de dia, pois ela é invisível, ela se torna invisível  e esquecida.
No meio do lixo, entre cães e gatos, entre ratos e fotos de desconhecidos, ela continua a sonhar.
Sonhar com um dia melhor, e não é fácil, quando todos os dias são cheios de calos e cortes, nos cacos de vidro, nas latas de milho verde...
Essa não era a vida que ela esperava, não é a vida que lha fora prometida, enquanto isso busca no outros, nos restos, em pedaços, um lugar seguro para onde não precise mais catar.

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