Dentro da casa ouvia-se passos, frenéticos diria...Para um lado e para o outro. A luz da varanda apagada, a da sala idem e todas as outras da casa. Ficou apenas a luz da vela que ela carregava.Seus olhos estavam cobertos de lágrimas, os cabelos cacheados perdendo o brilho natural, fazia dias que não tomava banho.Estava com a mesma roupa desde que fora abandonada no altar da Igreja do Coração Sagrado.
Católica fervorosa, agora estava parada de frente ao altar que construiu no cantinho do seu quarto com suas dezenas de santinhos, rosários e cera.
O vestido branco estava amarrotado e as bordas sujas de lama, a lama de um dia chuvoso, pois ela saiu correndo pela cidade procurando o seu amado. Não o encontrou.
A família que ela tinha era ele, o resto ela não conhecia, foi adotada desde cedo por uma senhora e quando tinha 20 anos ela morreu, vivia apenas dentro de casa...Sua mãe se ocupava a ensiná-la as matérias da escola, e a aposentadoria era suficiente para as duas.
Ela era tão importante para ela, que no altar dos santos tinha uma foto sua, ela acreditava que sua "mãe" pudesse protegê-la.As promessas que ela fez para as imagens não valeram de nada.
Ouvia-se agora o barulho do gesso se quebrando...Um, dois, três santos foram quebrados na parede contra o espelho e os outros foram atirados pela janela junto com os rosários. Mas a foto da sua mãe continuava lá, no lugar de todos, pois ela lembrou que foi avisada sobre o mal dos casamentos, sua mãe dizia que nunca se casou pois "sabia" que não teria sorte e que no mínimo seria abandonada no altar...As palavras dela ficaram martelando a sua cabeça e mais lágrimas rolavam enquanto ela olhava, paralisada, a foto daquela senhora negra de rosto tão ameno.
Deixou a vela de lado e olhou em volta do seu quarto;a sua cama estava cheia de presentes. Mas ela não se importava com nada daquilo, pôs a foto em volta dos braços e deitou no chão. Pensando que aquela casa não era tão confortável quanto há dois dias atrás, onde estava deitada com o seu amado. A casa a sufocava e muito.Olhou para o chaveiro e lembrou que sua mãe tinha uma casa no litoral onde ás vezes passavam o verão apenas as duas. Nossa, há quanto tempo que ela não voltava naquela casa, anos, muitos anos. Claro, uma mulher de trinta anos de idade e bem sucedida não tinha necessidade de passar o verão no litoral, haviam "resorts" mais belos...Mas não haviam pessoas mais belas como aquelas que sua mãe sabia ser todos os dias.
Era a hora perfeita para voltar na casa, esquecer um pouco as coisas tristes e lembrar dos momentos felizes com sua mãe. Ah! E quase que ela esqueceu do quarto de brinquedos, todo o mês sua mãe comprava uma boneca ou um urso de pelúcia e isso acontecia desde sempre. Meu Deus como ela poderia esquecer! A ultima boneca que ganhou sua mãe havia comprado um dia antes de falecer.
Estava convencida de que esse verão sem casamento seria melhor ao lado de boas lembranças...Boas lembranças no seu quarto de brinquedos.
A noite não foi muito boa. As lembranças do casamento frustrado insistiam em acordá-la a cada instante.Levantou uma vez para beber água e aproveitou para trazer a garrafa e um copo, para o caso de ainda ter sede.Deixou a cama como estava-preferiu o chão.
No dia seguinte tratou de retirar o vestido e jogá-lo no lixo,pensou apenas, mas decidiu deixá-lo no quarto junto aos presentes que nem chegou a abrir.
Foi ao banheiro e tomou um banho bem gelado no intuito, talvez, de despertar daquele pesadelo.Ela comeu duas ou três frutas que estavam sobre a mesa,mas não tocou nos docinhos da festa e que viera o caminho todo comendo, os ignorou.
Pegou um vestido florido,um par de sandálias e a chave da casa e do carro. Agora era a hora de viajar.
A casa ficava a cinco horas da capital, era uma longa viajem solitária rumo à um lugar que ela nem sabia se ainda existia, mas fazer mais o quê? Era o único lugar "seguro" que pudesse passar esse verão trágico.Ligou o carro, deu um longo suspiro e se despediu de sua casa.
Toda a sua viajem ela foi pensando como seria diferente se não tivesse conhecido aquele homem.Se sua vida seria cheia de regalias? Sim, seria, pois tudo o que conseguiu foi com seu prórprio esforço, não havia a necessidade de se culpar. Na verdade esse homem veio mais atrapalhar sua vida,talvez ele buscasse "status" na empresa, pois ela estava acima de todos ali e abaixo apenas dos donos...Era melhor mudar o pensamento.
O caminho era árido, seco e quente! Ligou o ar condicionado, pôs os óculos escuros e seguiu em frente.Ao longe avistou uma barraca avermelhada, poderia ser algum vendedor de frutas, era melhor levar algo para passar, pelo menos esse dia, amanhã procuraria por algum mercado.Parou e procurou alguém...Olhou mas não avistou nada. Que estranho uma barraca abandonada.
-Olá minha querida!-
Ela tomou um susto e quase falou um palavrão. Uma mulher vestida de vermelho e maquiagem carregada, apareceu de repente, logo após ela olha para o outro lado!
-Estou precisando de frutas a senhora teria uvas?- Disse ela.
-Desculpe-me mas não vendo frutas!
-Que pena, sabe onde posso encontrar?
-Acho que apenas no litoral você encontrará alguma quitanda, por aqui há apenas essa barraca.
Achou estranho haver apenas aquela barraca por ali, de um lado e do outro só se viam plantas rasteiras, de onde aquele mulher vinha?Será que dormia ali?Não, era melhor nem pensar já estava com muita sede e o caminho era muito longo.
-Obrigada senhora!
Quando foi fechando a janela a mulher gritou!
-Espere!Eu tenho algo aqui que irá agradá-la!- Que bom, ela já estava com muita fome e sede, qualquer coisa era bem vinda.-Tome!
Uma carta, a mulher lhe deu uma carta, daquelas de tarô com uma moça segurando a boca de um leão!
-Mas o que eu farei com isso?- Perguntou ela atônita esperando receber pelo menos um copo de água!
-Apenas para lembrá-la de que a queda pode ser vista de diferentes ângulos...-E fez um sinal com a cebeça, como de despedida, mas antes retirou de dentro de uma caixa uma fruta do conde e deu para ela.-Tome deve está com fome.
Ela agradeceu e foi-se embora, olhando aquela carta, aquela mulher segurando a boca de um leão "La Force", estava escritou embaixo, A força!
E seguiu viajem rumo ao litoral.
Dentro de alguns instantes chegaria na casa. A cidade estava tão diferente de como era antes.Meu Deus, o parquinho que ela costumava brincar estava totalmente destruído, parou o carro, respirou o ar puro com cheiro de mar e desceu. Não haviam crianças por perto, as casas pareciam abandonadas, será que todo mundo havia fugido dali?Passou as mãos pelo resto de grama, a grama seca que ainda restava e que furava seus delicados dedos, mas continuou ali por algum tempo, pensando na FORÇA!
Será mesmo que ela tinha aquela força que a moça de vermelho disse? Ela duvidava muito disso e deu um sorriso. "Forte eu?" pensou.Mas ela talvez não soubesse que já havia enfrentado muita coisa durante os últimos mêses. Sim ela era forte, forte o suficiente para aguentar as memórias daquele parquinho...Forte demais para suportar os fantasmas da infância!
Depois de descançar no parquinho ela percebeu que já estava anoitecendo e as luzes dos postes ainda não estavam acesas. Entrou novamente no carrro e seguiu na direção nordeste di litoral, passou por uma feirinha -apenas barracas, nenhuma mercadoria- e reconheceu que estava perto.
A casa na verdade ficava o mais próximo possível da praia. Poucos metros dentro do carro e chegou em frente aquela casa velha,com a sua cor azul desbotada em alguns lugares, sua varanda cheia de areia e suas janelas enferrujadas pela maresia.
Nada disso a intimidou, ela não voltaria dali, depois de ter decidido ir para a velha casa do litoral.Não, ela estavdecidida que entraria, por cima de areia,janelas e o que quer que fosse.
Retirou da bolsa a chave, foi até a porta e para sua surpresa, não abriu!
-Como assim não abre, vai abre, abre! - brigava com a porta como se tivesse brigando com alguém, uma cena cômica, mas desesperadora para ela. -Que droga, a chave não é esta, deve ter ficado dentro da gaveta.Eu vou entrar ai nem que prescise arrombá-la.
E ela o fez.
Dois a três chutes e a porta se abriu, o ferrolho estava tão fraco que cedeu e um sorriso de missão cumprida ficou estampado no seu rosto durante alguns segundos.
Como uma cega,começou a tatear as paredes a procura de um "botão" para acender as lâmpadas.Havia, mas não havia energia para ligá-las.
Ela então bateu o pé no chão literalmente e retirou da bolsa uma caixa de velas, eram suficientes para não passar a noite no escuro e ainda por cima conseguir encontrar o quarto.
Acendeu-ás e conseguiu subir a escada, não procurou desbravar muita coisa, apenas seguiu em frente e foi deixando velas e mais velas, espalhadas por todo o corredor, até chegar ao quarto, intácto! perfumado! belo como antes!Não havia nem poeira no quarto, era o quarto dos brinquedos.
Deixou uma vela no chão e de tão emocionada que estava nem conseguiu olhar muito o que havia dentro do quarto,apenas lembrou que a porta do carro estava aberta, que faltavam coisas para comer e mais velas eram necessárias. Desceu,fechou a porta do carro, pegou suas coisas e subiu correndo-parecia até que alguém a esperava.
Tudo parecia como antes!Meu Deus como ela estava feliz naquele lugar, não esperando e nem desesperando por nada.Ela sabia que tudo o que precisava estava ali, um castelo cheio de bonecas, ursos de pelúcia,vaquinhas,leões, e tantos outros animais.Era a coisa mais linda do mundo.E pensou por que não tinha voltado ali, antes.
Dormiu toda a noite tão rápido, adormeceu normalmente.
Rodeada de brinquedos, sonhou...Um sonho fantástico, uma história linda e triste que fora resumida na sua pequena mente...Depois ela iria colocar no papel toda aquela experiência...Mas agora tudo o que importava era voltar para casa, na cidade, com sua fuligem, com seus traidores porém com uma certeza, que havia outro lugar em que poderia estar longe de qualquer problema desses...Uma casa, cheia de brinquedos, em um chão mágico que provocaria sonhos, nunca antes sonhados.
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