segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Irmãos Reflexo


Sempre vivi sozinha. Na minha pequena casa no interior.Sozinha se não fosse o meu gato "Sombra", assim o chamo pela cor opaca de seus pelos negros e dos seus olhos sorrateiros esmeralda.
Eu o encontrei dentro de uma sacola de lixo;com os olhos sujos e o corpo cheio de feridas.Cuidei dele como se fosse a única criatura- e última- que poderia cuidar -e era-.Minha felicidade foi tanta que não pude me conter.Eu gritava de alegria, enquanto os jovens na rua riam de mim.Afinal eu estava na capital e uma velha de 72 anos com seu conjuntinho florido segurando um gato sujo não é algo que se vê todos os dias.
Na capital, eu gostava de passear, ver coisas novas, talvez até conhecer alguma pessoa...Eu já fui casada, pelo menos tentei, mas como aquelas tragédias dos filmes, fui abandonada no altar...E o que me restou foram brinquedos e lembranças...
Eu sempre procurava por algo pra me alegrar, era uma senhora solitária, muito sorridente mas parecia que aquele meu rosto de sempre colocava medo em algumas pessoas, parece que hoje ninguém mais ri e quando ri ou se está debochando ou é um simples louco,bêbado e por ai vão surgindo os adjetivos.
Mas voltando ao "Sombra".Eu o levei para casa, antes passei no açougue e pedi um pedaço de carne, do mais macio, eu temia que meu gato estivesse bastante doente e não queria que ele se esforçasse. Ele comeu devorando tudo, enquanto comia olhava penetrantemente nos meus olhos, como se estivesse aliviado e agradecido por tê-lo ajudado.Consegui uma caixa de papelão e peguei o ônibus de volta para casa, em êxtase.
Fui cuidando de suas feridas aos poucos, com óleo de coco, ervas e muito carinho.
Logo, "Sombra" estava sempre ali perto de mim...No começo ele era bastante tímido, quieto e não saia de casa, depois tudo isso foi ficando mais intenso e o gato não queria me abandonar.
Eu sempre gostei muito de ler aqueles romances antigos,livros de culinária e histórias de fantasia.Eu tinha uma biblioteca bem grande e quando entrava nela me sentia tão contente e feliz de poder viajar o mundo e o espaço sem sair da minha poltrona.
Comecei a perceber que em determinadas leituras "Sombra", subia na poltrona e ficava olhando as folhas do livros a passar.Como sempre gostei de ler em voz alta,"Sombra" me olhava como se tudo estivesse entendendo daquilo, sempre com aqueles olhos esmeralda vidrados em mim ou nas folhas.
Todos os dias em que eu estava na biblioteca "Sombra" vinha, não correndo, mas caminhando com leveza e sutileza que nem percebia a sua chegada.Antes de pular em cima do braço da poltrona ele me olhava como se pedisse licença. -Pode subir "Sombra" estou procurando uma receita de bolo. Ele me olhava e dava um salto,gracioso e se sentava em posição de sentinela.
Eu fui me afeiçoando cada vez mais ao gato, ele nunca me deixava só, sempre estava lá na cozinha,na biblioteca e já estava dormindo na janela do meu quarto.
Ele sempre me olhava da janela e enquanto eu estivesse acordada lá estava ele, me observando...
Meu querido "Sombra", um amigo especial que estava talvez querendo retribuir o que eu fizera por ele, quando o retirei daquele saco de lixo, asfixiante e molhado...Um animal humilde.
Entretanto meu gato não sabia, nem sabia ele que dentro de mim havia uma vontade morta de sair correndo pelo mundo a pé...Meu "Sombra", nada eu poderia esconder dele, seus olhos podiam ler mentes e nenhuma mentira poderia enganá-lo pois ele me espreitava como uma sombra realmente.
De súbito peguei minhas coisas.Nunca pensei que fosse capaz de fazer aquilo.
Mas fiz.
Toda a minha biblioteca estava bagunçada, pois eu derrubei os livros da prateleira, estava perturbada demais para continuar lendo aqueles romances e vendo imagens antigas de receitas culinárias.Fui ao meu quarto e retirei da gaveta um álbum de fotografias...Unicamente minhas...De paisagens e de gatos.Meu pequeno gato chamado "Madrugada", nomes sugestivos talvez..Era um gato negro de olhos esmeralda, como o "Sombra".
Sai de lá correndo e quando cheguei até a porta, com minha mala e o álbum de fotografias lá estava ele,sentado olhando para mim, com aqueles seus olhos imensos e verdes. O gato estava imóvel e eu também.Sentei no chão,abri o álbum e mostrei para ele as fotos minhas com o meu "Madrugada",ele, por mais fantasioso que pareça ser, olhou para o álbum de fotos, depois para mim, lambeu a pata e desfilando pela casa, foi até a biblioteca.Eu segui o gato.Ele estava sobre uma pilha de livros e eu descabelada, sem roupas intimas e totalmente descontrolada comecei a gritar: "O que diabos queres de mim gato maldito, fala!", eu não estava bem naquele momento e não sabia o motivo da minha loucura a explicação dos meus comportamentos insanos, se o soubesse, loucura não seria. O gato estava em cima de uma pilha de livros como falei.Livros velhos, empoeirados que eu já não lia há tempos.
Em um daqueles livros estava escrito: " Lofaron". "Lofaron", não queria voltar à este lugar novamente, eu lembrava de coisas tristes e de amigos que deixei lá...Sofredores amantes, mães desesperadas e filhos perdidos...Depois de me "mostrar" os livros, o gato caminhou, olhou para mim e pulou pela janela, coisa que ele nunca tinha feito.
Desde aquele dia nunca mais o vi, já procurei por toda a cidade, mas não o encontrei, ele deixou apenas a lembrança e um aviso empoeirado...Estava lá, em "Lofaron", em uma das cartas de Tezin Guber: " Na Madrugada não viamos Sombra pois estávamos mergulhado em Sombras na Madrugada."

2 comentários:

  1. Excelente... adorei o gato..hehehe
    e claro, a história..
    ai como eu queria um Sombra...rsrsrsrrs

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  2. Texto muito bom. Acho que você deveria investir na ideia de expor o conteúdo sobre cultura. Vai que a vontade de sair correndo pelo mundo possa ser expressa neste espaço do blog, e ele se torne um reflexo da cultura do próprio mundo.
    Um abraço e parabéns.

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